segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Saudade

Saudade daquela época em que eu nem pensava em ter saudade.
Saudade de quando o tempo era meu parceiro e eu não precisava correr contra ele.
Saudade de vc, contarolando uma canção besta.
Saudade de sentir cheiro de chuva, sem me preocupar com enchente, catástrofe, dor.
Saudade de tomar sol, sem me lembrar de melanoma, carcinona, UVA e UVB.
Saudade de andar de bicicleta, sem preocupação.
Saudade de tomar cerveja sexta-feira, depois da aula.
Saudade dos amigos tantos de outrora, quando vc não precisava se preocupar com distanciamento, rugas e outras coisas mais.
Saudade de nós dois, ouvindo Band News.
Saudade do tempo em que os melhores personagens eram playmobils.
Saudade de tentar imitar o mapa do tesouro do Menino Maluquinho do Ziraldo.
Saudade do meu coelho Chamego.
Saudade de brincar de rouba bandeira e esfolar o joelho na rua.
Saudade do gosto do cheiro de bala Halls de cereja.
Saudade de tempo em que saudade era um luxo e não uma nostalgia absurda.
Saudade de ouvir Legião Urbana em fita cassete.
Saudade do cheiro da roupa de cama da minha mãe.
Saudade daquela época em que as escolhas eram mais simples, os medos mais leves, as responsabilidades mais amenas, os amores mais fugazes, as certezas menos definitivas, os desejos mais tolos, as verdades menos absolutas.

"Saudade vaga presença, coisa que bem não se explica, algo de nós que alguém leva, algo de alguém que nos fica"

domingo, 18 de outubro de 2009

SuperAção

Dificuldades sempre existirão. Essa é uma das célebres frases do mundo.
Crescemos acreditando que tudo é superável, que Deus não nos dá fardos maiores que nossos ombros, que tudo é positivo para nosso crescimento.
Muitas vezes duvido. Acho que essa é uma dessas estórias criadas para delinear ações, mas sem embasamento real, tipo não poder comer manga e tomar leite.
Outras vezes acredito, pois acho que é uma forma de nos condicionarmos a aceitar melhor àquilo que nos acontece.
E em meio à crença e a descrença, vamos nos comparando aos outros, à outras realidades e os outros devem fazer isso conosco também.
Hoje eu queria acreditar...
Queria crer que tudo ficará bem, que depois da tempestade vem a bonança, que dias melhores virão, que há uma luz no fim do túnel, que tudo dará certo no final.
Queria não duvidar, apenas crer, sem procurar razões científicas, lógicas, concisas.
Queria a fórmula mágica do pensamento positivo, mas me deparo com o inexorável. Não há fórmula mágica, assim como para todas as outras coisas da vida. Há somente você e sua fé.
Então tenha fé! Não há nada que não possa ser mudado e as surpresas agradáveis ou não sempre hão de aparecer. Cabe a nós, escolher a nossa verdade e seguir...

segunda-feira, 21 de setembro de 2009

No Meu Mundo

No meu mundo predominam os sonhos. Sonhos completos, com falas, diálogos, discursos, declarações de amor, reencontros, receitas de vida.

No meu mundo predominantemente há música. Variadíssimas! Como o nome do CD que acabei de gravar. Apaixonadas, dançantes, modernas, sofridas, alegres, bregas, mas sobretudo que refletem o que anda se passando com meus dias.

Nesse mundo há uma necessidade absurda de ser, ter, saber... Verbos no infinitivo! E muitas vezes eu queria viver no gerúndio, observando, ficando à mercê do vento, procurando o compasso de um coração que se parecesse com o meu.

Nesse mundo há inúmeras gargalhadas, risos soltos, sorrisos amarelos, dentes brancos, outros nem tanto, risadas guardadas esperando o momento de se tornarem livres e ecoarem pela sala, pela praça, pelo tempo.

Desse mundo e do outro também, há tantos medos, fantasmas vestidos com lençóis brancos, receios, arrependimentos, soluços baixinhos que se tornam choros contidos que se tornam prantos torrenciais.

Nesse mundo há tanto o que se falar, tanta gente pra conhecer, tanto lugar pra ir e inúmeras vezes vivemos insistindo em querer voltar no tempo e fazer a mesma coisa, com as mesmas pesssoas, no mesmo lugar, pra alimentar o cômodo, o estabelecido.

O mundo é mau! E vou me fazendo de forte, vestindo a couraça da mulher moderna, o escudo da independência.

O mundo é filme, é "Uma verdade inconveniente", é descobrir que "Ele não está tão afim de vc", é ver que "O vento levou" e ficar revendo as historinhas àgua com açúcar da TV à cabo.

O mundo é o que somos, é o que construimos e descontruimos a todo momento, é o tempo que nos damos e que distribuímos aos outros, aos que amamos, aos que nem conhecemos, aos que toleramos, aos que gostaríamos que nos amassem. O mundo é só esse espaço de tempo.

terça-feira, 12 de maio de 2009

Exercício para o Coração

Ele acordou cedo e resolveu caminhar. Fazia dias que não se exercitava, mas os chopps da noite anterior pareciam exacerbar sua cincunferência abdominal.
Iniciou o processo pensando em todos aqueles cálculos que os educadores físicos fazem para determinar qual o melhor ritmo cardíaco a ser mantido. Como sabia que não conseguiria fazer aquela conta, ali, de cabeça, optou pelo ritmo que lhe parecia mais aprazível. Prosseguiu com passadas rápidas, se sentiu ofegante e avistou um senhor sexagenário esbanjando um vigor cardíaco invejável, enquanto ele parecia que teria um infarto fulminante.
Para dispersar a opressão cardiopulmonar, resolveu transferir seus pensamentos para outras questões que o afligiam e persistiu nas passadas.
Era inevitável que ela não pavoasse seus pensamentos. Como pode se envolver daquele jeito!? Se viam sazonalmente, mas sempre que se viam era impossível não se tocarem. E por que aquilo durava tão pouco? Uma noite e tudo se dissipava. A urgência se perdia no vazio abstrato dos relacionamentos fugazes de hoje em dia. E ele queria tomar coragem para dizer o quanto ele a queria, o quanto achava que poderiam ficar bem juntos, perenemente. Mas ele tinha medo! Medo da rejeição, medo da falta de correspondência. Imagine ela rindo, depois dele se declarar, e dizendo a ele que entendeu tudo errado, que ela não queria nada sério, pois agora ela precisa de um tempo para si mesma e estava ligada ao auto-conhecimento, à religião budista, à carreira...
Seu coração se apertou mais e ele apertou mais as passadas, como se seus pés pudessem pisar naquele pensamento tão furtivo que lhe tomava conta dos músculos, e transformá-lo em rastro.
Aumentou o volume do seu MPqualquercoisa e ouviu o "Último Romance" do Los Hermanos ecoar em seus tímpados.

sábado, 2 de maio de 2009

Sem ar

Estou andando em círculos, buscando a cada dia um pouco de uma felicidade minimalista que nem sei se existe. Me falta coragem de largar o que é cômodo, estabelecido, resolvido, seguro. Me falta fôlego para dizer as verdades que gostaria. Me falta discernimento para medir o risco, calcular o medo. Me falta fôlego...

Andei relendo Rubem Alves, intertextualizado, sábio quando à sua religião, atento ao mundo, e ele me mostrou um pouco de sua "Oração":

"O mundo de fora é um mercado onde pássaros engaiolados são vendidos e comprados. As pessoas pensam que, se comprarem o pássaro certo, terão alegria. Mas pássaros engaiolados, por mais belos que sejam, não podem dar alegria. Na alma não há gaiolas.

A alegria é um pássaro que só vem quando quer. Ela é livre. O máximo que podemos fazer é quebrar todas as gaiolas e cantar uma canção de amor, na esperança de que ela nos ouça. Oração é o nome que se dá a esta canção para invocar a alegria."

Não estou procurando o pássaro engaiolado que me trará alegria, mas preciso aprender a oração.

terça-feira, 21 de abril de 2009

No Tempo da Maldade


Tanta coisa aconteceu. O tempo passou e muita coisa mudou.

Antes nos reuníamos mais. Falávamos da vida, falávamos bobagem, falávamos do futuro, do presente, do passado. Cantávamos juntos, músicas bregas, fazíamos coreografias e ríamos, sobretudo, ríamos. Éramos, certamente, menos ocupados, menos preocupados, menos "pós-ocupados".

Habitávamos mundos particulares, quase paralelos, partilhávamos as mesmas gírias, os mesmos sonhos, dividíamos os medos, as histórias, as mentiras, as cervejas, as contas, a família.

Não tínhamos os inimigos de hoje, os horários, o medo do ridículo. Sabíamos pedir desculpas e tínhamos coragem de fazê-lo. Sabíamos onde nos encontrar. Amávamo-nos.

Hoje, eventualmente nos vemos, uns de nós não se veem mais, ou ainda, ao verem-se fingem não fazê-lo.

Talvez fossémos pessoas melhores, menos solitárias, menos cercadas de preconceitos, mais amigas, menos amargas, mais inteligentes, mais dependentes, mais felizes.

E tanta coisa aconteceu, muito tempo passou e "(...) agora era fatal que o faz de conta terminasse assim (...)".

sábado, 18 de abril de 2009

Rubim

É um canto longíquo, perdido no final de uma estrada de muitos quilômetros. É uma terra quente, de ar triste, de uma brisa inconstante.
É uma praça perdida entre a imensidão vazia que a circunda. São 12 horas de viagem.
São gerações que conheceram seus muitos points da moda. É Rabo da Gata, é Péra, é Casa Rosada, é Gavião, é Estação da Cerveja, é seu Alcides, é o bar de seu Manoel, é o Trinca Ferro, é o Alvorada, é o Domingo Alegre. São sons, lágrimas, encontros, desencontros, despedidas, despedaços...
É a falta d'água, é o Forró da Água, é a água que não chega, é a enchente, é a água da Medéia.
É a politicagem, é a usurpação do público, é o público transcendendo o privado. É o dinheiro pouco e a alegria tanta, é o riso solto, é a receptividade.
É a cerveja gelada de Zé dos Queijos, é subir pra AABB à pé e parar pra descansar na Caixa D'água (que não tem água), é o "Nós é Doido", é seu Álvaro.
É a reconstrução do passado, é a reforma do Tênis, é o calçamento de pedras que furam o pé, é o "boteco" de Dielson, é o Carnaval na praça, é a luz que apaga às 22h, é a Cavalgada, é a vontade de voltar sempre.
É a Serra da Cangalha, é o coração batendo mais forte quando se avista a cidade da estrada, é a estrada em que não se passa, é o asfalto.
São as brincadeiras de rua, é rouba bandeira, garrafão, briga de animal, "ping" latinha, esconder. É o Boi de Janeiro, é a Lobinha de Ouro, é a Maria Manteiga. É guerra de momona, é entrar no rio sem medo de pegar verme.
É o São João na praça das Acácias, é a ladeira do sobe e desce, é o picolé de Edvaldo, é Xixico, é a Calçada da Fama.
É o Perta-guela, é a rua da Barroca, é o Carrapato, é o Cavaco, é o Mercado, é a rua São Geraldo.
São os amigos de uma vida inteira e os inimigos exporádicos, são todas as lembranças trançadas no passado e no futuro.
É tanta história, é tanto passado, é o medo que não haja mais conserto, é um imã, um açúcar, uma União, um rubi.
Talvez não pareça real, talvez seja apenas o vilarejo de todos os nossos sonhos, àqueles vividos e àqueles que nem ousaram se tornar realidade.